segunda-feira, 25 de junho de 2012

PSOL condena tentativa de golpe no Paraguai


O Partido Socialismo e Liberdade (PSOL - Brasil) condena veementemente a tentativa de deposição do presidente do Paraguai, Fernando Lugo, pelo parlamento daquele país. O julgamento em curso no Congresso paraguaio, liderado pelos partidos conservadores do país, visa desestabilizar a democracia, impedindo a conclusão do mandato do presidente democraticamente eleito. Isso explica o rito sumário que sequer assegura condições mínimas de defesa ao acusado.
Os recentes conflitos onde morreram uma dezena de camponeses merecem investigação e punição dos culpados, mas não podem servir de pretexto para um golpe parlamentar justamente por aqueles que governaram o país usando da violência e do autoritarismo. Estes setores não têm condições  morais nem políticas para falar em democracia.
Assim, o PSOL defende investigações livres e transparentes sobre os crimes ocorridos em Canindeyú contra os camponeses sem-terra, e ao mesmo tempo, repudia qualquer tentativa de transformar a escalada de violência no campo, causada pela brutal concentração de terras nas mãos de latifundiários, em justificativa para desestabilizar o governo do Presidente Fernando Lugo e a democracia no Paraguai. Para o PSOL, o delicado momento que vive o Paraguai exige definir que o lugar dos socialistas é ao lado da democracia e da justiça social contra a tentativa de golpe parlamentar por parte dos partidos conservadores.
Deputado Federal Ivan Valente PSOL/SP
Presidente Nacional

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Conjuntura Brasil-Caetité



Nos últimos quinze anos o Brasil apareceu de vez como potência econômica no cenário mundial. A política neoliberalista de desenvolvimento, iniciada nos governos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) do PSDB e consolidada nas administrações de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff ambos do PT, conduziu todo esse processo. As mudanças chegaram: maior visibilidade dada ao Brasil nas organizações econômicas mundiais, maior poder aquisitivo de alguns setores da sociedade, maior concentração de terras, crescimento do desmatamento, grande utilização de agrotóxicos pelo agronegócio, exploração extenuante de recursos naturais e tantas outras modificações visíveis.

Analisamos que essas mudanças não foram apenas para o bem da sociedade brasileira. Muito do que vem ocorrendo acabou consolidando a hegemonia burguesa e não melhorou no mesmo grau (ou em nenhum grau mesmo) a vida dos trabalhadores e trabalhadoras das classes menos favorecidas. A degradação do meio-ambiente, o endividamento das classes médias, o consumismo desenfreado, a privatização de importantes serviços antes públicos, a exploração e desmoralização do(a) trabalhador(a), são exemplos das consequências de um política que se rende ao capital e aposta todas as suas fichas no desenvolvimento à todo custo e que desrespeita os direitos humanos, vide o que está acontecendo com a construção da Usina de Belo Monte e as remoções para atender as necessidades de realização da Copa do Mundo FIFA de 2014.

O que se observa em Caetité (cidade do sudoeste baiano) não é diferente. Nos últimos vinte anos a cidade vem passando por transformações e é um exemplo micro do que se vê no Brasil.

Da mesma forma que no âmbito nacional, as mudanças em Caetité melhoraram a vida de uma pequena parcela da sociedade. Enquanto isso, a exploração dos recursos naturais e o crescimento sem planejamento afetaram de maneira impactante a vida das famílias mais pobres. A falta d’água, a inflação nos preços dos gêneros alimentícios (ainda pior agora na seca), a especulação imobiliária, a carestia do valor dos alugueis são ocorrências fruto do desenvolvimentismo que atrapalham a vida de quem tem pouco pra sobreviver.

As autoridades municipais (e estaduais também) se preocuparam em atender as exigências e necessidades das empresas que vieram explorar a natureza e a força de trabalho. A população está exposta a radioatividade, como apontam várias pesquisas, pela mineração do Urânio; se vê removida para poder se construir a Ferrovia Oeste-Leste; sofre demais com a falta de água pela fala de planejamento para atender as necessidades das empresas mineradoras; tem suas terras griladas e desvalorizadas pelas empresas de Energia Eólica. E não se vê o poder público agindo para defender e dar boas condições de vida para o povo caetiteense.

O que vemos tanto no Brasil como em Caetité é o desenvolvimentismo, o economicismo que quer tornar o país numa potência econômica e não se preocupa com a melhoria da qualidade de vida do povo, com um país bom para se viver. Pois essa política está ao lado do grande capital e dos lucros exorbitantes e não da população como um todo.

Nesse cenário, percebe-se como é necessária a luta para a melhoria das condições de vida do povo, pela divisão do bolo que vem crescendo. Lutar por maiores investimentos na educação, na saúde, na cultura, na assistência social; bater de frente com o poder do capital; lutar por um mundo humanamente justo e socialmente igual.

Por Antônio Francisco Rodrigues de Freitas
Graduado em História e Militante do PSOL.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

8% do PIB para a educação: uma lamentável aprovação na Câmara


altA Comissão Especial do Plano Nacional de Educação (PNE - PL 8035/2010) aprovou, na tarde desta quarta-feira 13, relatório que determina 8% do Produto Interno Bruto (PIB) para a educação. O deputado Ivan Valente foi o único a votar contrariamente, defendendo 10% de investimento público para o setor até o ano de 2020.
Em seu voto em separado, lido durante a reunião, Ivan Valente explicou que com 10% do PIB dá para incluir todas as crianças em creches públicas em vez de terceirizar o setor, como vem ocorrendo atualmente. Ele acrescentou que a proposta de investimento de 10% não é irreal para um país que tem o sexto maior PIB do mundo. “É uma questão de escolha política investir em educação. R$ 225 milhões para dez anos não são suficientes para a educação brasileira”, argumentou.
O deputado citou o exemplo da Coreia do Sul, que, de acordo com ele, em 50 anos priorizou o ensino e melhorou seus índices colocando até 14% do PIB no setor. No Japão, ressaltou o parlamentar, o investimento chegou a 17% do PIB. “Hoje, o investimento japonês é de 6%, mas eles não têm mais analfabetos”, salientou.
Já o Brasil, sustentou Ivan Valente, possui 14 milhões de analfabetos e outros 30 milhões que conseguem ler, mas não entendem o que leram – os chamados analfabetos funcionais. "Sem os recursos, o PNE se transforma numa carta de boas intenções”.
O relatório do deputado Angelo Vanhoni (PT/PR) foi aprovado, com destaques, que serão apreciados no dia 26 de junho. O percentual do PIB a ser investido na educação é um dos pontos a serem examinados nos destaques.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Aumentam as paralisações dos servidores federais; greve geral será dia 18


As greves de servidores federais devem aumentar esta semana. Já estão paralisados os professores de 51 instituições federais de ensino superior.  Entram em greve nesta segunda-feira (11) os trabalhadores técnico-administrativos das universidades federais e os funcionários do setor de geografia e estatística. Para esta quarta-feira (13) está anunciada a paralisação dos servidores do Judiciário Federal e do Ministério Público da União.
De acordo com a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), que reúne sindicatos de todo o país, uma greve geral irá acontecer no dia 18 de junho. A pauta é em defesa dos servidores e serviços públicos, além de buscar um avanço nas negociações com o governo federal, que até o momento não apresentam resultados.
Um ato público da categoria também está marcado para ocorrer durante a Cúpula dos Povos, na Rio +20, no dia 20 de junho.
No início do mês, mais de 15 mil servidores federais, apoiados por estudantes, realizaram uma marcha em Brasília (DF). As principais reivindicações foram a reestruturação das carreiras, a reposição inflacionária e correção de distorções nos salários.
De São Paulo, da Radioagência NP, Vivian Fernandes. Aqui: http://www.radioagencianp.com.br/10829

domingo, 10 de junho de 2012

Fiocruz: pesquisa aponta riscos da mineração de urânio na Bahia (Caetité)


O Greenpeace já havia alertado para a contaminação 
da água potável da região por conta da mineração de urânio

A exposição a níveis elevados de radioatividade e as condições inadequadas de trabalho na mina de urânio de Caetité, na Bahia, oferecem riscos à saúde dos trabalhadores e da população que habita o entorno. A informação é dos pesquisadores Marcelo Firpo, do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador da Escola Nacional de Saúde Pública Sérgio Arouca (ENSP), subordinada à Fundação Oswaldo Cruz, e Renan Finamore, doutorando na mesma instituição.
Segundo eles, são comuns denúncias do sindicato dos trabalhadores na mina que pertence às Indústrias Nucleares Brasileiras (INB), subordinadas ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, que detêm o monopólio da exploração do urânio no país. Os trabalhadores relatam falta de transparência e de informações adequadas a respeito dos riscos, problema que é mais grave entre os terceirizados.
Sem receber o treinamento dado aos demais funcionários, fazem o mesmo trabalho, estão expostos aos mesmos riscos mas sem os mesmos direitos. Além disso, conforme os pesquisadores afirmam em entrevista ao site oficial da ENSP/Fiocruz, embora a INB negue, há relatos da falta de acesso aos resultados dos exames ocupacionais periódicos e aos dados de monitoramentos da qualidade das águas subterrâneas locais.
Estudos da Secretaria Estadual de Saúde da Bahia apontam maior incidência de alguns tipos de câncer na região de Caetité. Já entidades locais relatam a percepção que a população tem de um aumento de casos da doença após o início da mineração de urânio, em 2000, e de que houve acidentes que poderiam, em tese, vir a elevar os níveis de exposição acima do limite aceitável.
Os pesquisadores da Fiocruz afirmam que, apesar de haver indícios de uma radioatividade naturalmente mais elevada que o normal naquele município, e de só depois de 10, 15 anos de exposição aos agentes radioativos a doença começar a se manifestar, vazamentos acidentais podem aumentar o risco de exposição da população à radiação.
A contaminação, em geral, ocorre durante a manipulação de maneira inadequada do concentrado de urânio, produto final da exploração na mina que segue para o processo de enriquecimento, etapa na qual é transformado em combustível para as usinas nucleares. Ou durante a ingestão de água ou alimentos com teor de radioatividade acima do nível tolerável.
Além da exposição dos trabalhadores e dos perigos para a população do entorno da mina, há os riscos da liberação acidental de material contaminado para a atmosfera, solo, rios e lençóis freáticos. Outro sério temor é que, como a mina é aberta, a detonação da rocha libera poeira que contém material radioativo. Dentre as substâncias que mais preocupam está o gás radônio, que pode ser absorvido pela respiração e futuramente causar câncer de pulmão.
Impulsionada pelo Programa Nuclear Brasileiro, a exploração de urânio no Brasil se concentra em Caetité. A mina produz anualmente 400 toneladas de urânio concentrado, que é enviado para a etapa de enriquecimento no exterior. É grande a possibilidade de o minério vir a ser explorado também no Ceará, nas jazidas localizadas em Santa Quitéria. Uma mina que operava em Poços de Caldas, em Minas Gerais, foi desativada.
Próximo a Caetité vivem comunidades de pequenos agricultores que, após o início da exploração da mina, passaram a ser estigmatizados e não conseguem comercializar seus produtos a não ser entre eles mesmos. Recentemente, a organização Greenpeace denunciou contaminação de um poço artesiano na região próxima da mina, do qual os moradores retiravam água para o próprio consumo, uma vez que falta sistema de abastecimento para essas comunidades.
Em maio do ano passado, por meio de informações não oficiais, a população tomou conhecimento da chegada de uma carga radioativa proveniente de Iperó, em SP, para processamento em Caetité. A cidade paulista é conhecida pelas instalações do Centro Experimental de Aramar, onde a Marinha desenvolve projetos, entre eles o do submarino nuclear. Temendo que os caminhões trouxessem rejeitos nucleares – o que a INB veio a negar posteriormente – mais de cinco mil pessoas foram às ruas para impedir a descarga dos caminhões.
Recentemente, a partir de denúncias da população em geral, sindicatos, Comissão Pastoral da Terra e Ministério Público, a ENSP começou a estudar os problemas da mineração do urânio. O objetivo é discutir uma cooperação nacional e internacional para apoiar o movimento pela justiça ambiental em torno desse problema em Caetité, bem como produzir informações sobre riscos, saúde e a mineração, tornando mais transparente e democrático o debate público a respeito dos riscos.

terça-feira, 5 de junho de 2012

A greve dos professores das Universidades Federais


A greve dos professores das Universidades Federais


Mauro Iasi*
O Ministro da Educação, o senhor Aloísio Mercadante, se diz surpreso com a deflagração da greve nacional dos professores universitários federais. É compreensível, primeiro porque o MEC esteve ausente e omisso durante todo o processo de negociação ocorrido durante o ano passado e parece desconsiderar a real situação dos professores e as distorções da atual forma na qual se estrutura a carreira docente. Vejamos porque para nós a greve não só não surpreende como se apresenta necessária.         
Razões da greve
Há dois anos que os professores negociam com o governo seu projeto de carreira docente e para tanto o ANDES construiu a partir de um amplo debate com a categoria um anteprojeto de lei no qual  é apresentada nossa proposta de uma carreira docente única com 13 níveis remuneratórios baseado no tempo de carreira, na titulação e na avaliação realizada com autonomia e por critérios objetivos definidos com fundamentos acadêmicos.
A posição do ANDES, que consideramos correta, é que nossa discussão salarial deveria ser feita com base em um projeto de carreira, ou seja, não nos interessa a mera discussão de um índice de aumento salarial ou de recuperação de perdas se não atacamos as raízes das distorções que dividem nossa carreira e geram desigualdades injustificáveis entre professores. Por exemplo, na concepção do governo a carreira dos docentes do ensino público federal se divide em ensino universitário e do ensino básico, técnico e tecnológico (que inclui os professores dos Colégios de Aplicação, ensino técnico de segundo grau, etc.) Sabemos das especificidades destes setores, mas segundo nossa visão são diferenças de função e não de profissão, somos professores do ensino público federal com diferentes atribuições dentro de uma mesma carreira.
Outra divisão, esta dentro do mesmo campo do ensino universitário, é aquela que compõe nossa atual carreira e que nos divide em professores auxiliares, adjuntos, assistentes e titulares, esse último constituindo uma carreira à parte que inclusive exige novo concurso. Ora, essa distinção se fundamenta e um pressuposto quase feudal, próprio de um modelo universitário anacrônico e autoritário em frontal contradição com o modelo de universidade e sociedade que defendemos. Sua base é a concepção de que existe um grupo de professores “donos” de certa área ou disciplina e que dão algumas aulas durante o ano comunicando seus estudos e pesquisas assim como seu acúmulo teórico sobre um tema e são auxiliados por professores que o circundam como assistentes ou adjuntos e estes por auxiliares numa hierarquia que implica mais que uma divisão de trabalho uma lógica de poder.
Isso não faz sentido na realidade da universidade brasileira que desde a constituição de 1988 em seu artigo 207 estipula a articulação entre ensino, pesquisa e extensão. Na prática tal conformação divide a categoria em faixas remuneratórias que funcionam como um funil em que poucos podem chegar ao final da carreira e as salários maiores e a maioria fica presa nas faixas intermediárias. Segundo estudo promovido pela ADUFRJ, por exemplo, na UFRJ, mais de 80% se aposentam como professor adjunto 4.
A proposta inicial do governo criava mais um patamar que denominou de Professor Sênior, hoje retirada da proposta, extinguindo a carreira de professor titular, que impunha aos professores mais quatro degraus até o final da carreira e impunha critérios que fechava ainda mais a saída do funil.
Durante todo o ano de 2011 o ANDES acompanhou uma longa e tortuosa enrolação do MPOG que supostamente deveria debater as propostas apresentadas sobre a carreira buscando aproximações e diferenças visando chegar a uma proposta negociada. Sob uma série de pretextos o governo protelou as reuniões, quando não as desmarcou unilateralmente numa total falta de respeito ao que havia sido combinado. O fato que chegamos ao final do ano sem que um milímetro da negociação sobre a carreira docente houvesse sido acordado.
No final do ano passado o governo apresenta uma proposta emergencial, diante do impasse na negociação, que consistia basicamente em três pontos: aumento emergencial de 4% a ser pago seis meses adiante (em março de 2012); incorporação de uma das gratificações ao vencimento básico (GEMAS para ensino superior e GEDBT pra o ensino básico, técnico e tecnológico). Até maio deste ano o governo não havia cumprido sequer o acordo emergencial.
Uma greve em defesa da universidade pública: pela carreira docente, por salários e por melhores condições de trabalho.
O governo apresentou um Projeto Lei que incluía os termos acordados ao final de 2011 e o transformou em Medida provisória agora em maio (a MP 568). Ocorre que junto com o aumento de 4% e a incorporação das gratificações, agrega inúmeras medidas referente à várias categorias do funcionalismo que não foram negociadas e que pode gerar perdas para os trabalhadores, como é o caso da mudança do cálculo da insalubridade que afeta diretamente os médicos.
O acordo e seu injustificável atraso é insuficiente, neste sentido a greve dos professores não é apenas pelo seu cumprimento, na verdade uma obrigação acordada com o governo, mas pela imediata abertura de uma negociação séria sobre nossa carreira e pelo enfrentamento das causas que levam hoje à precarização do trabalho docente, das condições de trabalho e das instalações universitárias. Esse aspecto está ligado diretamente à expansão realizada pelo governo que não veio acompanhada dos recursos necessários para sua implementação gerando salas de aulas superlotadas, pressões para um aumento da carga horária dos docentes em sala de aula prejudicando a relação entre ensino, pesquisa e extensão, falta de professores,  precariedade de instalações.
Vários campus estão funcionando em espaços cedidos por prefeituras, salas improvisadas, sem laboratórios, equipamentos e instalações adequadas. Tudo isso tem acarretado vários problemas que vão desde turmas que estão ameaçadas de não se formar, como é o caso da medicina de Macaé que não tem hospital para que seus alunos façam a residência além da carência de professores em várias disciplinas.
Na verdade o sucateamento da universidade pública e a maneira como o governo entende o setor revela uma concepção de Estado que está na base do projeto de governo que se implantou em nosso país. Vivemos uma contra-reforma do Estado e uma clara opção pela lógica do mercado e das parcerias público-privadas que tem por centro e meta principal a formação de superávits primários sangrando o fundo público para colocá-lo a serviço dos interesses do grande capital monopolista. Não há uma crise da Universidade Pública, o que há é uma clara intenção de adaptá-la, destruindo-a, para que sirva aos interesses da lógica capitalista e do mercado.
Desta forma, o ensino público é concebido como um serviço oferecido que deve disputar o mercado e seus “clientes/consumidores” com as demais empresas do setor e para tanto deve assumir uma lógica gerencial fundada na “eficácia”, entendida como produzir o serviço com os recursos existentes e ter iniciativa de captar os recursos adicionais necessários. Daí as Universidades são incitadas a buscar recursos na iniciativa privada, seja através de projetos de parceria, financiamento de pesquisa e de desenvolvimento tecnológico, através de fundações ou outras formas. Para os professores é pensado uma remuneração básica e uma concorrência entre seus pares no balcão de projetos e bolsas oferecidas pelas instituições de fomento ou pelas oportunidades do mercado, o que vem se tornando para boa parte da categoria a principal fonte de sua remuneração, ou, no mínimo, uma parte considerável de seus vencimentos.
Além desta prática quebrar a autonomia universitária e o necessário financiamento público, gera distorções e diferenças não apenas entre unidades da Universidade, com centros e unidades com grandes somas de recurso e outras com recursos abaixo do mínimo necessário, o que se reflete não apenas nas instalações, mas na própria capacidade de produção de pesquisas, intercâmbios e visibilidade de sua produção acadêmica e científica; como, também, entre os professores e sua remuneração.
A situação atual é produto desta opção. Por isso se explica o abandono de uma política, não de valorização dos salários, mas mesmo de sua recomposição. Se considerarmos os salários nominais entre 1998 e 2011 de categorias do serviço público federal que exigem a mesma formação e que se compõe de atividades similares, como por exemplo os profissionais de Ciência e Tecnologia e os pesquisadores do IPEA, temos que em 1998 os professores universitários recebiam R$ 3.388,31, os pesquisadores do  IPEA R$ 3.128,20 e do MCT recebiam R$ 2.6632,36. Em 2011 a situação se inverte de forma que os pesquisadores do IPEA ganham R$ 12.960,77, em segundo lugar os profissionais do MCT com R$ 10.350,68, e os professores passaram para a última posição com R$ 7.333,67, sendo a pior remuneração entre os funcionários públicos com este nível de formação exigido.
Isso considerando a categoria como um todo, pois as divisões as quais nos referíamos no interior da carreira existente e que permanecem na proposta do governo, fazem com que os aumentos oferecidos concentrem-se no alto da pirâmide e se diluam nas categorias intermediárias e na base. O secretário de relações do trabalho do MPOG, Sérgio Mendonça, por exemplo, alega que considerada no conjunto os professores  tiveram reposta a inflação do período relativo aos governo Lula e Dilma (cerca de 57,1 %). No entanto, considerando as diferenças, os extratos superiores da carreira, como professores titulares e assistentes 3 e 4, tiveram em media seus salários ajustados entorno de 15% acima da inflação, enquanto os adjuntos, faixa na qual se encontra a maior parte dos professores inclusive os aposentados, amargam uma defasagem que chega à 40% abaixo da inflação do período.
Para o governo esse não é um problema da educação, de uma política para universidade brasileira, mas um problema de gestão, não é por acaso que o principal negociador durante todo esse tempo não foi o MEC, um ilustre ausente e omisso nesse debate, seja com Haddad, seja agora com Mercadante, um político que traz no nome a marca de seu compromisso, mas o Ministério de Planejamento.
Os professores universitários são vistos como uma categoria privilegiada que trabalha pouco e ganha altos salários e a universidade um antro de maus gestores e de desperdício do dinheiro público, justificando o controle que rouba a autonomia universitária, uma limitação de recursos e o destino de completá-los no mercado e das parcerias, condenando a universidade a se transformar em uma central de serviços e os professores em mascates de projetos e que tem, se quiser cumprir os requisitos para ascender na carreira, que dar aulas (muitas aulas), participar de projetos de extensão, da pesquisa, da pós-graduação, além de participar dos espaços coletivos de gestão da vida universitária que se tornam cada vez mais homologatórios e formais.
O resultado disso é o adoecimento dos professores, a insegurança na carreira que é cada vez mais preterida roubando dos campos aqueles que poderiam contribuir para uma universidade pública e de qualidade, uma lógica perversa que sucateia a universidade pública para oferecer como saída sua mercantilização.
Por tudo isso os professores estão em greve, na maior greve do último período, pela defesa da Universidade Pública, pela defesa da carreira docente apresentada pelo ANDES-SN, por melhores condições de trabalho. Devemos isso ao pais, porque precisamos de uma universidade pública de qualidade, ainda que lutemos por mais que isso, para nesta universidade pública também se reflita os interesses dos trabalhadores e da maioria da população lutando por aquilo que chamamos da luta por uma Universidade Popular, e, por isso, a luta por uma Universidade Pública e por uma Universidade Popular é uma luta pelo socialismo. Devemos isso, também, a nós mesmos, os professores, porque merecemos respeito e precisamos resgatar nossa dignidade espezinhada por este governo de burocratas à serviço do grande capital monopolista que vê na Universidade mais oportunidade de negócios (como mostra a proposta da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares- EBSERH); mas, principalmente, devemos isso aos nossos queridos alunos que merecem uma educação de qualidade e uma verdadeira aula, aquela que demonstra que é somente no caminho da resistência e da luta que conquistaremos uma universidade melhor e caminharemos para superar a lógica do capital que está na base da proposta de universidade que se implanta.
Nós não podemos impedir que os exploradores se comportem como tal, da mesma forma que não nos cabe mudar o comportamento de seus aliados e serviçais que hoje no governo implementam o desmonte das políticas públicas, do Estado e, portanto, da Universidade Pública. Mas, podemos e devemos decidir não ser seus cúmplices e dizer em alto e bom tom: se quiserem destruir a Universidade Pública terão que fazer sem nosso consentimento, sem nossa omissão, terão que fazê-lo contra nós e isso não se dará sem luta.
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Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, presidente da ADUFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002). Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.
Texto publicado originalmente no sítio do Brasil de Fato. Disponível aqui: http://www.brasildefato.com.br/node/9735