domingo, 19 de fevereiro de 2012

Carnaval de Salvador: “apartheid” e seletividade em uma ilha de brancos cercada por uma corda de negros.


*Por Marília Lomanto Veloso

Ignoro o critério dos órgãos responsáveis pelo Carnaval de Salvador, para estabelecer o percurso dos Blocos, Trios Alternativos, Independentes ou qualquer outro nome dessas parafernálias musicais. Até que me esforcei por saber, junto a um órgão de turismo, mas não tive êxito na resposta. Certo é que alguns/algumas dos “deuses/deusas” que puxam essas “corporações” não passam pelos tradicionais percursos da Avenida Sete, Piedade, São Pedro, Praça Castro Alves, chamado Circuito Campo Grande (ou Osmar), que prefiro designar por “Circuito Senzala”, tal é a manifesta concentração de nichos de pobreza que ali se aglutinam. Muitos desse reis/rainhas do Axé, Pagode, desfilam apenas pelo trajeto Barra/Ondina, (ou Circuito Dodô), que denomino “Circuito Casa Grande”, em razão do grupo de elite que prefere curtir o Carnaval com “segurança”, longe da “mistura” do centro da cidade.

Por escolha política, estou no “Circuito Senzala” e, do alto do quinto andar de um prédio em frente ao velho Jardim da Piedade, cercado por grades de ferro escondidas atrás de muralhas de madeira, posso enxergar com maior objetividade o Carnaval declamado internacionalmente por ser a mais intensa expressão de alegria (e com razão) e de respeito à diversidade étnica e cultural que marca nosso povo (o que não é verdadeiro). Lamentavelmente essa festa, em nossa capital, vem resgatando a figura de um Navio Negreiro, dessa feita, sofisticado e de elevada tecnologia. Grilhões de antigamente agora são cordas que negros e negras arrastam, de mãos enluvadas, para dar proteção à grande massa de brancos e brancas que se torce (nem sempre) em frente, ao lado e no rastro dos possantes veículos que transportam “deuses/deusas” (às vezes negros e negras) do Axé, do Pagode e de não sei mais o que.

No podium simbolizado pelos Trios Elétricos, o encanto e a fama de rostos globais, convidados especialmente para gozo e delírio da maioria pobre, apinhada e comprimida ao longo do espaço público legal (mas ilegitimamente) apropriado pelas elites que desfilam nas grandes Empresas/Blocos que dominam o Mercado Carnavalesco de Salvador, produzindo um espetáculo destinado principalmente aos ricos e aos turistas que ocupam a cidade durante a folia momesca.

Enquanto arde minha repulsa pela expropriação dos sítios de divertimento em Salvador, continuo a espiar o rito de passagem dos Trios. Em um deles, sem bloco, três jovens negras reverenciam Carmem Miranda. Fico à espera dos gritos dos “espremidos” na Praça Piedade. Nada acontece. O silêncio e a indiferença do público deixam claro que as vocalistas, não obstante afortunadas na escolha das vestes e do repertório, não eram midiatizadas, logo, não conseguiam animar a platéia.

Outros Trios passam. De repente, acontece a explosão. A Praça Piedade enlouquece, mobilizada por uma das “deusas” douradas que comandam o espetáculo do Carnaval da Bahia. E outros “deuses/deusas” se sucedem, enquanto também se aglomeram os “excluídos da corda”, pulando entre as barreiras formadas pelos edifícios, pelo jardim e pelas “correntes vivas” que circulam os Blocos. Não só, o muro se fortifica por fileiras de policiais militares, que parecem ter olhos e ouvidos apenas para os negros fora da corda, os quais, em todos os momentos que pude presenciar, eram os únicos abordados.

Carnaval de Salvador é isso aí: uma ilha de brancos cercada por uma corda de negros e negras. Foi a única resposta que consegui formular diante da indagação que me fez uma paulista sobre essa festa já tão deformada na sua feição democrática. Um simples olhar sobre os Blocos/Empresas Carnavalescos é o bastante para consolidar essa afirmativa que dialoga com uma realidade oposta aos dias de Carnaval, único tempo em que a minoria branca e rica predomina sobre uma cidade histórica e matematicamente negra e pobre. Desse modo, os “habitantes” ocasionais da quase todas essas “cidades dos Blocos” escancaram um violento e insuperável contraste com a população negra dos cárceres, das invasões, das periferias, das favelas, dos quilombos, dos Sem Teto, dos Sem Terra.

Por todo o período de Carnaval, negro é o tom da corda, dos ambulantes que circulam aos milhares. É a cor do povo “Fora dos Blocos”, olhando das calçadas, pulsando ao som de altíssimos equipamentos que amplificam à exaustão as vozes dos “mitos” da passarela e aplaudindo os desfilantes dos Blocos, talvez, na sua expressiva maioria, descendências dos colonizadores de terras no passado, e agora, dos espaços antes livres para brincar e da alegria que vibra a cada passagem dos “latifundiários da folia”.


De fato, no Carnaval de Salvador, a rua, a avenida, a praça se constituem o grande domínio desses novos sujeitos sociais que são os empresários donos dos Blocos e seus associados. É verdade que algum recinto sobra para afrodescendentes, por sua inigualável capacidade vocal e instrumental. Mas por vezes questiono se essa aclamada e fascinante musicalidade não termina sendo uma estratégia excludente a partir de um discurso de inclusão social. Isso significa a urgência em se refletir sobre a utilização, pelas elites, do espaço da música e dos tambores como um grande quilombo, distanciando o potencial de negros e negras das “catedrais cristalizadas” que são as Universidades e de outros locus de poder.

Nesse contexto, chama atenção a quem se dispõe a fazer uma leitura crítica do Carnaval de Salvador, o fato de que em nenhum outro momento a luta de classes se revela com tamanho vigor em nossa cidade. As ruas, praças e avenidas que deveriam pertencer ao povo, seu titular legítimo, se acanham para ceder lugar a alguns privilegiados, a exemplo de atores, atrizes, autoridades e outros figurantes da nobreza daqui e de fora do país que se confinam em luxuosos camarotes garantidos pelos “deuses/deusas” do Carnaval ou explorados por capitalistas do Império de Momo, que vendem o espaço público a quem possa dispor do valor cobrado. O mais censurável é a restrição desses espaços, acessíveis apenas à nata esguia, branca e economicamente estável que desfila rigorosamente vestida de “abadá”, figurino de criação baiana comercializada a preços que humilham a quem ganha um salário e envergonham a tantos quantos militam na trincheira da busca pela destituição das desigualdades e pela construção de uma sociedade onde todos e todas, indistintamente, possam se “empoderar” da exultação de “ser pessoa”, e, nesse sentido, de “ser pessoa dentro de todo o espaço da alegria” do Carnaval de Salvador.

*Marília Lomanto Veloso – Doutora em Direito pela PUC/SP, Professora de Direito da UEFS, Ex Promotora de Justiça da Bahia, Membro do Conselho Penitenciário do Estado da Bahia e Presidente do JusPopuli/Escritó rio de Direitos Humanos.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

NOTA Á IMPRENSA E À POPULAÇÂO

Nós, policiais militares, reunidos no Ginásio dos Bancários, neste sábado dia 11 de fevereiro de 2012, decidimos pelo fim do movimento que mantínhamos há 12 dias. Nossa decisão partiu da premissa de que dignificamos a corporação encetando uma ação amplamente vitoriosa, que repercutiu na sociedade baiana e a nível nacional, mostrando uma categoria firme na  sua insatisfação com os baixos soldos e as promessas do governo não cumpridas. Foi esta ação que levou as autoridades, tradicionalmente desatentas aos reclamos da tropa, a negociar com os militares e ceder em alguns pontos. Durante esse dias a categoria deu provas incontestes de seu amadurecimento não colocando seus interesses acima dos da sociedade. Assim, evitamos um confronto com nossos irmãos do Exército, negociamos o cumprimento das determinações do Judiciário e estivemos sempre abertos para a negociação das nossas demandas. Não poderíamos, prejudicar a sociedade em função da intransigência do governo do Estado.   

A assembleia da Policia Militar legitima, respeita e agradece a todas as associações de polícias militares do Estado da Bahia, dentre elas a ASPRA que foi importantíssima na nossa greve, assim como as demais.
Repudiamos a forma autoritária e ditadora do Governo da Bahia, que de forma truculenta e autoritária, lacrou a Sede da ASPRA-BA, assim bem como a sua conta bancária. Episódio só visto antes durante a Ditadura...

 Agradecemos á população baiana o apoio que nos foi dado e a cobertura dos veículos de comunicação. Prometemos retribuir a todos através da pronta integração nos serviços para a sua proteção. E afirmamos que o fim do nosso movimento não significa nem que aceitamos a proposta do governo, nem que encerramos a nossa luta. Esta continua, por melhores condições de trabalho e respeito.


A ASSEMBLÉIA DOS POLICIAIS MILITARES DA BAHIA

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Insatisfação nos quartéis é fruto da crise! Governador Jaques Wagner (PT), sociedade baiana exige negociação com os grevistas!

Insatisfação nos quartéis é fruto da crise!


O ano de 2012 começou com a fortíssima greve unificada dos policiais militares e bombeiros do estado do Ceará, e se aprofunda com a deflagração da greve da PM no estado da Bahia. Além das mobilizações no Pará e Espírito Santo, possivelmente na próxima semana, os policiais civis, militares e bombeiros do Rio de Janeiro também devem parar.
Ocorreu o despertar dos policiais para a luta por melhores salários e condições de trabalho. A luta dos bombeiros no RJ deu exemplo de resistência. A necessidade e a justeza desta luta se espelham na defesa do PSOL pela aprovação da PEC 300. Há um conluio do governo federal e dos governos estaduais para impedir a aprovação de um piso nacional para policiais militares, e ao mesmo tempo, o governo Dilma anuncia corte de R$ 60 bilhões no orçamento 2012. Tudo isso para satisfazer os interesses dos credores da dívida pública.
É necessário afirmar que a crise nesta área afeta diretamente os mais pobres e, sua resolução, é dever dos governos estaduais e federal. Uma das principais medidas neste sentido é a aprovação da PEC 300, garantindo salários dignos aos trabalhadores, acompanhada de uma profunda reflexão sobre o atual modelo da segurança pública brasileira que hoje, infelizmente, criminaliza e persegue as maiorias excluídas como a população LGBTT, a juventude negra e o conjunto dos movimentos sociais em luta.
Denunciamos a postura autoritária dos governos estaduais, que se juntam para reprimir os movimentos de greve. Neste caso tal atitude unifica PSDB, PT e PMDB.
O PSOL é contra que os trabalhadores paguem pela crise. Continuamos batalhando pela auditoria da dívida pública e pelo fim do superávit primário.
O PSOL exige abertura imediata de negociações com grevistas da Bahia, do RJ e dos demais estados, a mais breve aprovação da PEC 300 e o fim da criminalização dos movimentos sociais!

Direção Nacional do PSOL

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Soneto aos que lutam

Ainda tem muitos que não saem da luta
Existindo apesar das mazelas e do preconceito
Exigindo melhores condições e respeito
Contra a mídia, o estado e sua força bruta

Lutam não só por feijão e fruta
Formulando um novo conceito
Para a emancipação do sujeito
Que hoje é explorado, oprimido e furta

As mulheres querem mais liberdade
Os negros, a histórica reparação
Homossexuais, direitos em igualdade

O operário reivindica em sua organização
Todos lutam pela felicidade
Com escola, cultura e pão

Antônio Francisco Rodrigues de Freitas
PSOL
Contraponto

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Um ano de protestos no Egito: a revolução continua

O britânico John Rees defende que a queda de Mubarak pode ser comparada com Fevereiro de 1917 na Rússia, e aponta para radicalização do processo no Egito.

JR Silva,
Londres


Praça Tahrir em 25 de janeiro de 2012 - Foto do facebook: Egyptians in the US 
Recém-chegado do Egito, onde esteve para acompanhar as manifestações do aniversário de 1 ano do início dos protestos populares que ainda tomam conta do país, o militante político, escritor e apresentador de TV John Rees falou sobre a chamada “Revolução Egípcia” e seus rumos em um debate ocorrido na renomada Escola de Estudos Africanos e Orientais, (SOAS, na sigla em inglês) em Londres, na última sexta-feira (27/01). O evento também contou a participação de Walla Quassay, estudante e ativista egípcia.
John Rees esteve no Egito durante os 18 dias de protestos que culminaram na queda Hosni Mubarak e também no dia 25 de janeiro deste ano, onde testemunhou uma gigantesca manifestação na simbólica Praça Tahrir. “Apesar da tentativa do Conselho Supremo Militar em criar uma divisão entre os “revolucionários” e o resto do povo, por meio de uma intensa propaganda estatal durante todo o último ano, os massivos protestos na Praça Tahrir do dia 25 mostraram que a revolução ainda está bastante energizada.” 

Ainda segundo Rees, o Conselho Supremo Militar, que vem governando o Egito desde a queda de Mubarak, tentou fazer do dia 25 de janeiro apenas uma celebração, com desfile militar e fogos de artíficios, com o objetivo de fazer do dia um marco sobre algo que já passou. Mas longe de apenas celebrar, as centenas de milhares de pessoas que se reuniram na Praça Tahrir protestavam contra os militares que controlam o país, dando sinais que a revolução ainda está em curso.

Outra importante observação de Rees diz respeito à principal praça de Cairo. “Um mito que foi difundido mundo afora é que a Praça Tahrir era o local de concentração dos manifestantes. Na verdade, ela era só um ponto final. Durante os confrontos no ano passado e mesmo neste dia 25, protestos massivos saíam de todos os cantos da cidade, alguns até de cidades vizinhas. Muitos tinham quilômetros de extensão, dos quais era impossível ver o fim.”
Perguntado sobre se os protestos do início de 2011 que culminaram na queda de Mubarak poderiam ser comparados a 1905 na Rússia - quando uma insurreição popular foi suprimida, para 12 anos mais tarde, em 1917, a Revolução Russa sair-se vitoriosa -, Rees foi além, e comparou a derrubada do ditador com fevereiro de 1917. “Eu não diria que os protestos que começaram no dia 25 de janeiro podem se equiparar com 1905 na Rússia, porque 1905 foi um movimento derrotado. Entretanto, da forma que o processo aconteceu agora no Egito, com a rápida queda do líder do país em apenas 18 dias, acredito que a melhor comparação é com fevereiro de 1917, quando a Revolução Russa derrubou o governo de então e se radicalizou em outubro do mesmo ano”. Para ele, a derrubada de Mubarak foi um feito notório. “A primeira etapa foi vencida”, afirma.
Rees defende que o sucesso da Revolução Egípcia depende necessariamente da criação de uma instituição que congregue as forças revolucionárias em torno de uma plataforma em comum. “É extremamente necessária a construção de uma instituição para fazer frente ao Conselho Supremo Militar. Seria como a Assembleia Nacional na Revolução Francesa, e os Conselhos Operários na Revolução Russa.”, argumentou.

Irmandade Muçulmana
Em eleições que terminaram no fim deste mês para o Parlamento, a coalização liderada pela Irmandade Muçulmana conquistou 47% dos votos. O partido salafista Al Nour, com inclinação política ultraconservadora, obteve 25%. Entretanto, para a Rees, a sensação de falta de legitimidade nas eleições para boa parte dos egípcios é forte.  “O comparecimento às urnas pelos egípcios foi de 56%. Se você comparar com a África do Sul, onde as primeiras eleições pós-apartheid tiveram a presença de 90% da população, ou mesmo com o Iraque, que sob ocupação estrangeira registrou 76% de comparecimento às urnas, verá que não é um número tão impressivo assim.”
A Irmandade Muçulmana foi proibida por décadas durante o regime de Mubarak e em junho de 2011 foi novamente posta na legalidade. Trata-se também da força política mais organizada no país. No início deste ano, o líder da organização no Egito, Mohamed Morsi, se reuniu com o número 2 do Departamento de Estado Americano, Bill Burns, após a proibição de relações formais entre os dois ter sido cancelada pelos EUA.
“O que eles querem é poder. Quando o Conselho Supremo Militar lhes puniram em novembro  eles voltaram às praças. Quando eles conseguem algo, eles se acalmam novamente”, sentencia Rees.
Entretanto, segundo o escritor, a Irmandade pode estar caindo em descrédito com os egípcios. “No dia 25 não havia muitos deles lá. E hoje, na primeira sexta-feira após dia 25, houve várias hostilidades contra eles. É a primeira vez que isso acontece de uma forma mais expressiva”. Sexta-feira costuma ser o dia com o maior número de protestos no país, já que os egípcios saem reunidos das mesquitas diretamente para as manifestações.
Perguntado sobre se acha se a revolução terminará vitoriosa ou não, Rees se sai com uma citação. “Eu acho que James Connonly, o revolucionário irlandês, acerta quando diz que os únicos profetas são aqueles que fazem seu futuro. Então eu não estou prevendo, estou trabalhando pra isso.”
QUEM É
Foto: Counterfire

John Rees (nascido em 1957) é um ativista político britânico, apresentador e escritor, membro da Stop the War Coalition e fundador da organização Counterfire, que pertenceu ao “Partido Socialista dos Trabalhadores” no Reino Unido. Pelo Islam Channel, ele é o escritor e apresentador das séries de história política Timeline e apresentador do programa Politics and Media.